Depois do projeto Ficha Limpa, Igreja Católica lança outra campanha para aproximar políticos e comunidade, com objetivo de formar eleitores conscientes para fiscalizar candidatos eleitosJuliana Cipriani - Estado de Minas
Depois de mostrar sua força na viabilização de um projeto de lei popular para combater a atuação de políticos corruptos em cargos eletivos – o Ficha Limpa –, a Igreja Católica em Belo Horizonte vai encabeçar uma grande campanha para instituir de vez a interação entre política e sociedade. Atuando em duas frentes, com os políticos mineiros e com as cerca de 4,5 mil pessoas que integram a arquidiocese da capital, a instituição pretende tornar a comunidade mais ativa na definição de propostas de políticas públicas e na fiscalização dos seus eleitos. As ações integram o projeto Com fé na política, que será lançado na quinta-feira pelo arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Azevedo, e representantes do Executivo e Legislativo do estado.
A partir do ano que vem, prefeitos dos 28 municípios da arquidiocese, deputados estaduais, federais, senadores e o governador Aécio Neves (PSDB) serão convidados para participar de palestras e debates promovidos pela Igreja, em parceria com o Núcleo de Estudos Políticos da PUC Minas (Nesp), com a presença de autoridades e especialistas.
Estão previstos dois encontros para falar sobre os temas economia e política e eleições e outros quatro para tratar de espiritualidade e formação cristã. Além de contribuir com a formação dos mandatários, a arquidiocese quer estreitar a parceria com os governos, contribuindo na definição das demandas da comunidade.
Paralelamente, a ideia é ampliar a participação do cidadão no acompanhamento do processo político. Para isto, a partir de janeiro do ano que vem serão distribuídas inicialmente 100 mil cartilhas educativas nas 250 paróquias da arquidiocese. A metodologia para contribuir com a formação política dos eleitores e qualificar a participação no pleito de 2010 será a do ver (análise dos problemas dos municípios e dos políticos do Brasil), julgar (o que precisa ser mudado) e agir (o que fazer para mudar).
Segundo o coordenador do Nuesp, Robson Sávio Reis de Souza, a Igreja pretende reforçar as pastorais sociais, a participação em conselhos e associações de bairro e em movimentos reivindicatórios. “Essa ideia de transferir a responsabilidade do destino da cidade para os eleitos e lavar as mãos reflete a imaturidade política. Queremos o protagonismo do cidadão, que cada pessoa se torne responsável pelo processo político”, afirmou. De acordo com ele, o projeto Com fé na política não terá ações exclusivamente católicas, mas cristãs, e adeptos de todos os partidos políticos ou religiões podem participar.
Fiscalização do Legislativo
Outra frente de atuação estimulada é a da fiscalização do Poder Legislativo. Já existe um grupo de acompanhamento que trabalha em parceria com uma organização não governamental na Assembleia. O objetivo é expandir o serviço para os 28 municípios da arquidiocese, tendo pelo menos um grupo em cada.“Escolhemos acompanhar o Legislativo porque é ele também que fiscaliza o Executivo e todos os projetos importantes como o orçamento passam por lá", afirma Robson Sávio.
Apesar de trabalhar no estímulo à escolha consciente e fiscalização dos candidatos, a Igreja não deve apoiar candidaturas institucionalmente. De acordo com o coordenador do Nuesp, a arquidiocese libera os padres para se posicionar como cidadãos, individualmente, mas não vai influir na campanha de qualquer candidato. “Se trabalhamos para que os cristãos tenham autonomia para escolher seus eleitos, seria até incoerente indicar candidatos”, diz Sávio.
O grupo Com fé na política também vai trabalhar para reativar o formato de grupos, que nas décadas de 1970 e 1980 atuavam nas paróquias com reuniões permanentes e debates sobre demandas e problemas da sociedade, levantando meios para solucionar as questões. “Da mesma forma que queremos políticos éticos e comprometidos, precisamos que os cidadãos cobrem e sejam pró-ativos, que saiam do discurso de vítima e passem a ter um papel de articulação”, avalia.
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