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sábado, 20 de novembro de 2010

Papa e Santa Sé


A VERDADEIRA AUTORIDADE NÃO É DOMÍNIO, MAS SERVIÇO: DISSE O PAPA NO CONSISTÓRIO QUE CRIOU 24 CARDEAIS

◊ Cidade do Vaticano, 20 nov (RV) - Bento XVI presidiu na manhã sábado, na Basílica de São Pedro lotada de fiéis, o Consistório ordinário público durante o qual criou 24 cardeais, elevando o Colégio a 203 membros, 121 dos quais eleitores.

O Papa recordou aos novos purpurados que o ser "singulares e preciosos colaboradores" do Sucessor de Pedro não é a coroação de "uma ambição pessoal", mas um ato de humildade e de serviço a Cristo e à Igreja.

Na Igreja não vale o modelo humano do domínio, mas a "lógica do inclinar-se para lavar os pés", a "lógica do serviço". Com uma homilia totalmente voltada para o sentido do novo ministério que a partir de hoje são chamados a assumir, o Santo Padre acolheu no Colégio cardinalício os 24 novos purpurados criados e publicados no terceiro Consistório de seu Pontificado, presidido solenemente na Basílica Vaticana.

O som das "trombas de prata" – instrumento de antigo uso litúrgico por ocasião de cerimônias pontifícias solenes e assim chamadas por emitir som cristalino – marcaram, junto às notas do "Tu es Petrus", a entrada do Pontífice na Basílica de São Pedro, por volta das 10h30 locais.

No semicírculo, dos lados do Altar da Cátedra, encontravam-se os neocardeais eleitores: oito italianos (Angelo Amato, Fortunato Baldelli, Velasio De Paolis, Francesco Monterisi, Mauro Piacenza, Gianfranco Ravasi, Paolo Romeo e Paolo Sardi), mais três outros europeus (o suíço Kurt Koch, o alemão Reinhard Marx e o polonês Kazimierz Nykz), dois estadunidenses (Raymond Leo Burke e Donald William Wurl), dois latinos-americanos (o Arcebispo de Aparecida, SP, Dom Raymundo Damasceno Assis – filho de Minas Gerais, e o equatoriano Raúl Eduardo Vela Chiriboga), quatro africanos (o zambiano Medardo Joseph Mazombwe, o congolês Laurent Monsengwo Pasinya, o egípcio Antonios Naguib, e o guineano Robert Sarah), e um asiático (o cingalês Albert Malcom Patabendige).

Entre os novos purpurados, quatro não-eleitores: os italianos Domenico Bartolucci e Elio Sgreccia, o alemão Walter Brandmuller e o espanhol José Manuel Estepa Llaurens.

Bento XVI recordou-lhes a raiz daquele vínculo de "especial comunhão e afeto" que une os novos purpurados ao Papa. A dignidade cardinalícia é o sinal tanto da "solicitude" do Cristo pastor, quanto do Deus sacrificado na Cruz, que o vermelho do barrete colocado pelo Pontífice na cabeça dos cardeais recorda de modo veemente.

Inspirando-se no Evangelho proclamado na Basílica Vaticana – onde Jesus explica aos discípulos o sentido do primado segundo Deus – Bento XVI afirmou:

"Todo ministério eclesial é sempre resposta a um chamado de Deus, jamais é fruto de um projeto pessoal ou de uma ambição própria, mas é conformar a própria vontade à do Pai que está nos Céus, como Cristo no Getsêmani. Na Igreja ninguém é dono, mas todos são chamados, todos enviados, todos são alcançados e conduzidos pela graça divina."

A disputa entre Tiago e João pelo primado e a indignação dos outros Apóstolos – observou ainda o Papa – "levantam uma questão central à qual Jesus quer responder: quem é o maior, quem é o "primeiro" para Deus?" Aquele que segue não a ideia de predomínio típica de quem governa um Estado, mas a "outra lógica" testemunhada por Cristo:

"O critério da grandeza e do primado segundo Deus não é o domínio, mas o serviço; a diaconia é a lei fundamental do discípulo e da comunidade cristã, e nos deixa entrever algo da "Senhoria de Deus" (...) É uma mensagem que vale para os Apóstolos, vale para toda a Igreja, vale, sobretudo, para aqueles que no Povo de Deus têm tarefa de guia. Não é a lógica do domínio, do poder segundo os critérios humanos, mas a lógica do inclinar-se para lavar os pés, a lógica do serviço, a lógica da Cruz que está na base de todo exercício da autoridade."

"A missão à qual Deus os chama" e que os "habilita a um serviço eclesial ainda mais repleto de responsabilidade" – concluiu a homilia – "requer uma vontade sempre maior de assumir o estilo do Filho de Deus", vindo ao nosso meio "como aquele que serve":

"Trata-se de segui-lo em sua doação de amor humilde e total à Igreja sua esposa, na Cruz: é naquele lenho que o grão de trigo, deixado cair pelo Pai no campo do mundo, morre para tornar-se fruto maduro. Por isso, é necessário um radicar-se ainda mais profundo e firme em Cristo."

Seguidas as palavras do Papa, por 24 vezes se repetiu o rito da imposição do barrete vermelho, com o neocardeal ajoelhado diante do Pontífice recebendo – junto com o chapéu cardinalício – a bula contendo o Título e a Diaconia atribuída ao novo purpurado.

Por fim, na conclusão da cerimônia, o abraço da paz entre o Papa e o novo cardeal, um abraço repetido logo em seguida com os outros coirmãos do Colégio do qual a partir de agora passam a fazer parte.

E neste domingo, Solenidade de Cristo-Rei do Universo, o Santo Padre celebrará, às 9h30 locais, na Basílica de São Pedro, a santa missa com os novos cardeais. A Rádio Vaticano transmitirá a missa ao vivo, via satélite, para todo o Brasil e demais países de língua portuguesa cujas emissoras nos retransmitem, a partir das 6h20 (do horário brasileiro de verão).

Durante a celebração o Pontífice entregará o anel cardinalício aos novos purpurados como "sinal de dignidade, solicitude pastoral e de mais robusta comunhão com a Sé de Pedro", para que se reforce "o amor à Igreja".

"Pregai o Evangelho, testemunhai Cristo, edificai a Igreja santa de Deus, abençoai todos e a todos levai a paz de Cristo", pede a oração que o Papa vai pronunciar, depois da entrega do anel cardinalício.

Os presentes irão rezar para que "o Senhor conceda à Igreja, família de Deus, a graça de manifestar a sua universalidade e catolicidade abraçando todos os povos e as culturas".

Na Segunda-feira, no Vaticano, Bento XVI proferirá um discurso aos novos cardeais, com os familiares e os peregrinos vindos para o Consistório. (RL/AF)


PAPA: HOMILIA DA CELEBRAÇÃO DO CONSISTÓRIO

◊ Cidade do Vaticano, 20 nov (RV) - Segue na íntegra, a homilia do Papa, no Consistório, para a criação e proclamação dos novos cardeais.


Senhores Cardeais,

Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
queridos irmãs e irmãos!

O Senhor me dá a alegria de realizar, mais uma vez, este ato solene, mediante o qual o Colégio Ccardinalício se enriquece com novos membros, escolhidos das diversas partes do mundo: trata-se de Pastores que governam com zelo importantes Comunidades diocesanas, de Prelados colocados à frente de Dicastérios da Cúria Romana, ou que serviram com fidelidade exemplar a Igreja e a Santa Sé.

A partir de hoje, eles começam a fazer parte daquele “coetus peculiares”, que presta ao Sucessor de Pedro uma colaboração mais imediata e assídua, sustentando-o no exercício de seu ministério universal. A eles, em primeiro lugar, dirijo minha saudação afetuosa, renovando a expressão de minha estima e de minha apreciação pelo testemunho que dão à Igreja e ao mundo. Em particular, saúdo o Arcebispo Angelo Amato e lhe agradeço pelas palavras gentís que me dirigiu.

Em seguida minhas cordiais boas-vindas às Delegações oficiais de vários países, aos representantes de numerosas dioceses, e a todos que vieram participar deste evento, durante o qual estes veneráveis e queridos Irmãos receberão o sinal da dignidade cardinalícia com a imposição do barrete e a atribuição do Título de uma Igreja de Roma.

O vínculo de especial comunhão e afeto, que une estes novos Cardeais ao Papa, os torna singulares e preciosos cooperadores do supremo mandato confiado por Cristo a Pedro, de apascentar suas ovelhas (cfr Jo 21, 15-17), para reunir os povos com a solicitude da caridade de Cristo. É exatamente deste amor que nasce a Igreja, chamada a viver e a caminhar segundo o mandamento do Senhor, no qual se resumem toda a Lei e os Profetas. Estar unidos a Cristo na fé e na comunhão com Ele significa estar “radicados e fundados na caridade” (Ef 3, 17), o tecido que une todos os membros do Corpo de Cristo.

A Palavra de Deus agora proclamada nos ajuda a meditar este aspecto tão fundamental. No trecho do Evangelho (Mc 10, 32 – 45) nos é colocada diante de nossos olhos a imagem de Jesus como o Messias – preanunciado por Isaías (cfr Is 53) – que não veio para ser servido, mas para servir: o seu estilo de vida se tornou a base das novas relações no interior da comunidade cristã e de um modo novo de exercer a autoridade. Jesus caminha para Jerusalém e preanuncia pela terceira vez, indicando-o aos discípulos, o caminho através do qual pretende levar até o fim a obra confiada a ele pelo Pai: é o caminho da humilde entrega de si mesmo até o sacrifício da vida, o caminho da Paixão, o caminho da Cruz. Mesmo assim, logo após este anúncio, como aconteceu com aqueles que nos precederam, os discípulos manifestam toda a sua dificuldade em compreender, a realizar o necessário “êxodo” de uma mentalidade mundana para a mentalidade de Deus. Neste caso são os dois filhos de Zebedeu, Tiago e João, que pedem a Jesus sentarem nos primeiros lugares ao lado dele na “glória”, manifestando expectativas e projetos de grandeza, de autoridade, de honra segundo o mundo. Jesus, que conhece o coração do homem, não permanece perturbado com esste pedido, mas imediatemente mostra o seu significado profundo: “vós não sabeis o que pedis”; em seguida leva os dois irmãos a entenderem o que significa colocar-se no seu seguimento.

Qual é então o caminho que deve percorrer aquele que quer ser discípulo? É o caminho do Mestre, é o caminho de total obediência a Deus. Por isso Jesus pergunta a Tiago e a João: estais dispostos a partilhar minha escolha de realizar plenamente a vontade do Pai? Estais dispostos a percorrer esta estrada que passa pela humilhação, pelo sofrimento e pela morte por amor? Os dois discípulos, com a resposta segura, “podemos”, mostram, ainda uma vez, não terem entendido o sentido real do que o Mestre tem em mente. E de novo Jesus, com paciência, faz com que eles deem um passo avante: nem mesmo expperimentar o cálice do sofrimento e o batismo da morte dá direito aos primeiros lugares, porque isso é “para aqueles a quem está preparado”, está nas mãos do Pai Celeste: o homem não deve calcular, deve simplesmente abandonar-se em Deus, sem pretenção, conformando-se à sua vontade.

A indignação dos outros discípulos se torna ocasião para estender o ensinamento a toda comunidade. Em primeiro lugar Jesus “ os chamou a si”: é o gesto da vocação primeira, à qual os convida a se voltarem para ele.

É muito significativo este referir-se ao momento constitutivo da vocação dos Doze, ao “estar com Jesus” para serem enviados, porque recorda com clareza que cada ministério eclesial é sempre resposta a uma chamada de Deus, não é nunca fruto de um projeto pessoal ou de uma ambição pessoal, mas é conformar a própria vontade à do Pai que está nos Céus, como Cristo no Getsêmani (cfr Lc 22,42). Na Igreja ninguém é patrão, mas todos são chamados, todos são enviados, todos são reunidos e guiados pela graça divina. E nisto está também nossa segurança! Só ouvindo novamente a palavra de Jesus, que pede “ vem e segue-me”, só voltando à vocação original é possivel entender a própria presença e a própria missão da Igreja como autênticos discípulos.

O pedido de Tiago e João e a indignação dos "outros dez" Apóstolos levantam uma questão central à qual Jesus responde: quem é grande, quem é o "primeiro" para Deus? O olhar se dirige ao comportamento que correm o risco de assumir "aqueles que são considerados os governantes das nações": "dominar e oprimir". Jesus indica aos discípulos um modo completamente diferente: "Entre vós, porém, não é assim". A sua comunidade segue outra regra, outra lógica, outro modelo: "Quem quiser se tornar grande entre vós será seu servidor, e quem quiser ser o primeiro entre vós será escravo de todos". O critério da grandeza e da primazia de Deus não é o domínio, mas o serviço; a diaconia é a lei fundamental do discípulo e da comunidade cristã, e nos deixa entrever alguma coisa do "Senhorio de Deus". E Jesus indica também o ponto de referência: o Filho do Homem, que veio para servir; sintetiza a sua missão na categoria de serviço, entendida não no sentido genérico, mas no concreto da Cruz, do dom total da vida como "resgate", como redenção para muitos, e o indica como condição para o seguimento. É uma mensagem que vale para os apóstolos, vale para toda a Igreja, vale, sobretudo, para aqueles que possuem a tarefa de guiar o Povo de Deus. Não é a lógica do domínio, do poder segundo os critérios humanos, mas a lógica do inclinar-se para lavar os pés, a lógica do serviço, a lógica da Cruz que está na base de todo exercício da autoridade. Em cada época, a Igreja está engajada a conformar-se a esta lógica e a testemunhá-la a fim de fazer transparecer o verdadeiro "Senhorio de Deus", que é o do amor.

Venerados Irmãos eleitos à dignidade cardinalícia, a missão, à qual Deus vos chama hoje e que vos habilita a um serviço eclesial cheio de responsabilidade, requer uma vontade sempre maior de assumir o estilo do Filho de Deus, que veio a nós como aquele que serve (cf. 22, 25-27). Trata-se de segui-lo em sua doação de amor humilde e total à Igreja sua esposa, sobre a Cruz: é sobre aquele lenho que o grão de trigo, deixado cair pelo Pai no campo do mundo, morre para se tornar fruto maduro. Por isto, ocorre um fortalecimento ainda mais profundo e firme em Cristo. A relação íntima com Ele, que transforma sempre mais a vida a fim de que possamos dizer como São Paulo, "não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20), constitui a exigência primária para que o nosso serviço seja sereno e alegre e possa dar o fruto que o Senhor espera de nós.

Queridos irmãos e irmãs aqui presentes, rezem pelos novos Cardeais! Amanhã, nesta Basílica, durante a celebração da Solenidade de Cristo Rei do Universo, entregarei a eles o anel. Será mais uma ocasião para "louvar o Senhor, que permanece sempre fiel" (Sl 145), conforme repetimos no Salmo Responsorial. O seu Espírito ajude os novos Purpurados no compromisso de serviço à Igreja, seguindo o Cristo na Cruz também, se necessário, usque ad effusionem sanguinis, sempre prontos – como dizia São Pedro na leitura proclamada – a responder a quem nos pede razão da esperança que está em nós (cf. 1 Pt 3, 15). A Maria, Mãe da Igreja, confio os novos Cardeais e seu serviço eclesial, a fim de que, com ardor apostólico, possam proclamar a todos os povos o amor misericordioso de Deus. Amém.


COLÉGIO CARDINALÍCIO: APOIO AO IRAQUE E HAITI

◊ Cidade do Vaticano, 20 nov (RV) - Bento XVI criou, neste sábado, no Consistório, 24 novos cardeais, entre eles o Arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis.

Nos trabalhos realizados na tarde de ontem, sexta-feira, o Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, Dom Angelo Amato, falou sobre a Declaração "Dominus Iesus", da Congregação para a Doutrina da Fé, após dez anos de sua publicação.

O prelado ressaltou que a declaração esclarece algumas fundamentais verdades cristológicas e eclesiológicas e relançou os diálogos ecumênico e inter-religioso a partir da identidade católica. A Dominus Iesus permanece um válido instrumento de clareza doutrinal e pastoral, como base da catequese, da nova evangelização e da missão ad gentes.

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal William Joseph Levada, falou a seguir sobre a "Resposta da Igreja aos casos de abusos sexuais: rumo a uma orientação comum" e sobre a Constituição Apostólica "Anglicanorum Coetibus".

No primeiro tema, o cardeal ofereceu uma atualização acerca da legislação canônica relativa ao delito de abuso sexual contra menores e fez algumas observações em relação à ampla responsabilidade dos bispos na tutela dos fiéis a eles confiados. O purpurado citou algumas palavras do Santo padre, seu exemplo de escuta e acolhimento das vítimas, ressaltando a colaboração com as autoridades civis e a necessidade de um compromisso eficaz em favor da proteção das crianças e dos jovens e de uma atenta seleção e formação dos futuros sacerdotes e religiosos.

Na segundo tema, o Cardeal Levada ilustrou a natureza e a origem da Constituição Apostólica "Anglicanorum Coetibus" sobre as Normas estabelecidas pela Santa Sé para os fiéis anglicanos que desejam entrar em comunhão com Igreja Católica. Explicou o contexto ecumênico e a situação atual acerca das normas.

Na sucessiva discussão intervieram 12 cardeais. Alguns relataram, com ulteriores aprofundamentos, aos temas apresentados na manhã, ou seja, sobre a liberdade religiosa e a liturgia, enquanto outros sobre os temas da tarde em particular sobre a "Resposta da Igreja aos casos de abusos sexuais".

Foi sugerido encorajar as Conferências Episcopais a desenvolverem planos eficazes, imediatos, articulados, completos e decisivos de proteção aos menores, que considerem os múltiplos aspectos do problema e as necessidades de diretrizes de intervenção, tanto para o restabelecimento da justiça quanto para a prevenção e a formação, também nos países onde o problema não se manifestou de forma dramática como em outros.

Durante o debate, o Colégio Cardinalício manifestou - junto com o Santo Padre – sua solidariedade para com os povos do Iraque e Haiti, que particularmente hoje sofrem privações e ressaltou a importância de criar iniciativas concretas de coleta de fundos que serão enviadas pelo Pontifício Conselho Cor Unum.

A reunião se concluiu com as breves palavras de agradecimento do Santo Padre e com a oração do Angelus. (MJ)


SAUDAÇÃO DO CARDEAL AMATO AO SANTO PADRE

◊ Cidade do Vaticano 20 nov (RV) - Durante o Consistório na manhã deste sábado na Brasílica de São Pedro, o Cardeal Angelo Amato dirigiu uma saudação ao Santo Padre, em nome dos novos 24 cardeais criados hoje. Eis o texto da saudação:

Santo Padre,

provenientes dos vários continentes estão reunidos em Sua presença 24 Seus filhos hoje honrados com a púrpura cardinalícia. Somos provenientes de diversas regiões geográficas e de diversas camadas sociais. Percorremos caminhos diferentes e desenvolvemos tarefas eclesiais diversas. Estamos, porém, unidos na mesma fé em Deus Trindade, na única obediência ao Sucessor de Pedro, no único serviço de fidelidade à Igreja de Cristo.

O chamado a cada um de nós para fazer parte do Colégio Cardinalício desperta sentimentos de estupor pela magnanimidade e amor do Santo Padre para conosco. Reconhecemos com trepidação as nossas limitações, diante da consciência da grande dignidade com a qual somos revestidos e que somos chamados a testemunhar com nossas vidas e nossas atividades.

A isso se acrescenta uma profunda gratidão a Deus, doador de todo bem, e ao Senhor, Santo Padre, que não quis levar em consideração a nossa indignidade e inadequação, permitindo, assim, que brotasse espontaneamente no nosso coração os mesmos louvores a Deus, que brotaram do coração da Virgem Maria, quando, cheia do Espírito Santo, glorificou o Senhor pelas "grandes coisas" que Ele tinha realizado n’Ela: "mostrou o poder de seu braço ... e exaltou os humildes” ( Lc 1:51-52).

Em circunstâncias semelhantes, o Beato Cardeal Newman disse que não tinha nada daquela sublime pefeição que se encontra na vida e nas obras dos santos; tinha, no entanto, a reta intenção, a ausência de finalidades pessoais, o sentido de obediência, a disponibilidade a ser corrigido, o medo de errar e o desejo de servir a Igreja.

Eis, Santo Padre, os nossos modestos dons, como agradecimento pela confiança que o Senhor coloca em nós. Participando do Colégio dos Cardeais, cada um de nós se torna seu colaborador especial; nos une mais intimamente à Igreja de Roma, e Àquele que "a preside na caridade" e convida-nos a continuar com renovado entusiasmo, na realização das específicas missões a nós confiadas, na Cúria Romana, ou nas várias sedes Episcopais, sempre testemunhas da unidade da Igreja e da sua universalidade.

Apesar dos desafios, dificuldades, perseguições, a Igreja de Cristo não cessa de proclamar a cada dia, em todas as partes do mundo, o amor de Deus pelos homens, de irradiar a luz do Evangelho, de insistir no tempo oportuno e inoportuno na proclamação da Palavra de Deus. Não se pode evitar o risco de sermos incompreendidos, de sermos rejeitados, e temos que estar preparados também para o extremo testemunho. Além disso, a cor púrpura faz uma referência direta ao testemunho, e o Senhor, Santo Padre, em seguida nos recordará para “estarmos prontos para comportar-nos com firmeza “usque ad effusionem sanguinis” para o aumento da fé cristã, pela paz e tranquilidade do povo de Deus e pela liberdade e a propagação da Santa Igreja”.

Santo Padre, neste momento para nós particulamente significativo, queremos confirmar-Lhe os nossos sentimentos de carinho, dedicação, confiança e lealdade. Estamos conscientes de que a nossa inclusão no Colégio dos Cardeais nos compromete a estarmos ao seu lado na realização do Ministério apostólico que lhe foi confiado.

Reafirmamos, portanto, nossa devoção e nossa fidelidade à Igreja de Cristo, que amanhã invocamos como Rei do Universo, e à Sua Pessoa, cientes da honra de estarmos trabalhando a serviço de nossos irmãos em estreita união com o Sucessor de Pedro, com o Senhor, Santo Padre, que se definiu um “humilde servo na vinha do Senhor”.
Confiamos hoje a nossa nova missão, que Sua Santidade quis com benevolência nos confiar, nas mãos e sob a proteção da Virgem Maria, Mãe da Igreja, Rainha dos Apóstolos e Auxílio dos Cristãos.

Com Maria, louvamos o Senhor, com Ela queremos ser sempre fiéis e disponíveis à vontade de Deus e à sua Palavra. (SP)


Igreja no Mundo

CHINA ORDENA BISPO SEM AVAL DO PAPA APESAR DE PROTESTOS DA SANTA SÉ

◊ Pequim, 20 nov (RV) - A Associação Católica Patriótica – a Igreja Católica considerada "oficial" na China e controlada pelo governo – ordenou bispo, neste sábado, Pe. Joseph Guo Jincai (ordenação não autorizada pelo papa) não obstante os protestos da Santa Sé, manifestados na última quinta-feira através de um comunicado de imprensa de Pe. Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa vaticana.

No comunicado, Pe. Lombardi afirmava – acerca da notícia sobre a prevista ordenação e sobre o fato de que seriam obrigados a participar da cerimônia alguns bispos em comunhão com o papa – que se tais notícias fossem confirmadas, "a Santa Sé consideraria tal ordenação como uma grave violação da liberdade religiosa e de consciência".

"Tal ordenação – dizia ainda o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé – será considerada ilícita e lesiva das relações construtivas desenvolvidas recentemente, entre a República Popular da China e a Santa Sé."

"Além disso – explicava Pe. Lombardi, em seu comunicado – a Santa Sé confirma que Pe. Joseph Guo Jincai não foi aprovado pelo Santo Padre para ser ordenado bispo da Igreja Católica. E concluía seu comunicado, sublinhando que "a Santa Sé, que deseja estabelecer relações positivas com a China, contatou as autoridades chinesas sobre tal questão, manifestando claramente a própria posição."

No final desta manhã, a agência missionária de notícias AsiaNews confirmou a presença, na cerimônia de ordenação episcopal, de oito bispos da Igreja Católica considerada "clandestina" pelo governo de Pequim, justamente porque seu clero e os fiéis estão em comunhão com o Santo Padre e com a Igreja de Roma.

A ordenação foi presidida por Dom Fang Jianping, de Tangshan. Os demais bispos participantes – que estão em comunhão com a Santa Sé e com o papa – teriam sido – segundo a AsiaNews – obrigados por funcionários do governo a participarem da cerimônia.

A ordenação de Pe. Guo Jincai, na igreja de Pingquan, em Chengde, província de Hebei, foi realizada sob forte esquema de segurança, com dezenas de policiais a bloquearem o acesso à igreja e a impedirem o ingresso de jornalistas.

Fontes da AsiaNews na China informam que os católicos de Chengde estão entristecidos com essa ordenação, enquanto os católicos de outras dioceses estão irados pelo que o governo fez contra a Igreja, colocando em embaraço os bispos que estão em comunhão com a Santa Sé, obrigando-os a participarem da ordenação de hoje. (AF)


TERRA SANTA: PEDIDO DE CANONIZAÇÃO DE CRISTÃOS MORTOS NO IRAQUE

◊ Jerusalém, 20 nov (RV) - Os árabes cristãos da Terra Santa desejam que os cristãos mortos no atentado perpetrado em 31 de outubro contra a catedral sírio-católica em Bagdá, no Iraque, sejam canonizados.

"Que o exemplo de suas vidas e seus sacrifícios sirva de inspiração para todos nós, cristãos árabes e não-árabes que vivemos no Oriente Médio" – ressaltam os cristãos árabes numa petição que está disponível no site http://www.martyrs-iraq.org.

A tragédia ocorrida na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Bagdá, causou mais de 50 mortos, entre eles dois sacerdotes. "Como árabes cristãos da Terra Santa, queremos reafirmar nosso desejo de viver nossa fé cristã na mesma terra onde Cristo morreu e ressuscitou por nossa salvação e onde seus apóstolos anunciaram a Boa Nova aos nossos antepassados" – prossegue o texto.

Seguindo a tradição da Igreja primitiva, os árabes cristãos pedem para que aqueles que morreram como mártires sejam reconhecidos e honrados como santos, de modo especial: Pe. Thair Sad-alla Abd-al e Pe. Waseem Sabeeh Al-kas Butros e seus companheiros; as irmãs Caldee Fawzeiyah e Margaret Naoum, mortas em 26 de março de 2007; os fiéis caldeus Raghid Aziz Ganni e os vice-diáconos Yousef Daoud, Wahid Hanna Isho e Gassan Issam Bidawid, assassinados em 3 de junho de 2007, em Mosul; e Dom Paulos Faraj Rahho, arcebispo caldeu de Mosul, encontrado morto em 13 de março de 2008. (MJ)


TEÓLOGOS AFRICANOS: DENUNCIAR CORRUPÇÃO DOS DIRIGENTES NACIONAIS

◊ Nairóbi, 20 nov (RV) – Os teólogos católicos africanos exortaram a Igreja na África a denunciar a corrupção dos dirigentes nacionais, durante um recente encontro realizado na Universidade Católica da África Oriental, em Nairóbi, no Quênia.

Segundo a agência de notícias CISA, mais de 200 teólogos e estudiosos de 16 países africanos se reuniram para debater sobre o tema "A Igreja na África após 50 anos de Independência". Do debate emergiu que na África se verificaram alguns casos de sucesso nos últimos cinqüenta anos, mas não foram realizados os compromissos prometidos no momento da independência.

Vários Estados do continente africano estão ainda combatendo contra o analfabetismo, doenças e pobreza, por causa da má gestão da administração pública, desperdício e corrupção de muitos governantes durantes os últimos 50 anos.

Os teólogos convidaram a Igreja a intensificar a sua missão pastoral entre os fiéis e promover as relações entre cristãos e pessoas de outras religiões, incluindo os muçulmanos.

Durante a conferência, que foi organizada pela Associação dos Teólogos Africanos (AAT), com sede em Abidjan, na Costa do Marfim, e pela Universidade Católica da África Oriental, em Nairóbi, foram entregues alguns títulos de reconhecimento aos estudiosos que deram uma contribuição importante no contexto teológico no âmbito da Igreja africana. (MJ)


Formação


EDITORIAL: SENTAR JUNTOS

◊ Cidade do Vaticano, 20 nov (RV) - Hoje o Papa presidiu o Consistório na Basílica de São Pedro durante o qual criou 24 novos cardeais. Consistório: a palavra latina “consistere”, que significa “sentar juntos”. De fato, todos os membros do Colégio Cardinalício, se reúnem para participar desse grande acontecimento eclesial.

Os Cardeais são os assessores imediatos do Papa, seus conselheiros, algo assim como o seu Senado. Todos pertencem ao clero de Roma, sendo o Papa, em primeiro lugar, Bispo dessa Diocese e, depois, Chefe Supremo da Igreja Católica, representante visível de Cristo junto a nós. Os cardeais têm também a grande responsabilidade de eleger o Sucessor de Pedro, durante o Conclave.

O próprio nome cardeal significa gonzo, dobradiça, aquilo que gira ao redor de algo, no caso o cardeal gira ao redor do papa. Seu compromisso com a Igreja de Jesus Cristo e com seu Pastor Maior se tornou tão forte a ponto de estar disponível a derramar o próprio sangue se for necessário. Por isso a cor vermelha vivo de suas vestes - a cor púrpura - e em seu novo anel, anel de uma aliança profunda, traz a imagem do calvário com o Senhor crucificado.

Portanto, quando alguém é criado cardeal, essa pessoa não recebe um grau dentro do sacramento da Ordem, mas sim um gesto de imensa e profunda confiança do Sumo Pontífice; ele é escolhido para colaborar com ele, de um modo mais estreito, no governo da Igreja.

Dentre os 24 novos Cardeais criados neste sábado temos a alegria de contar com um brasileiro, o Arcebispo de Aparecida e Presidente do CELAM, Dom Raymundo Damasceno Assis. Ele é o 19º cardeal na historio do nosso país. O Brasil está, atualmente, representado por 9 membros no Colégio Cardinalício, incluindo os que estão na ativa e os eméritos.

Os Cardeais representam, uns para os outros, uma colegialidade, uma família que se empenha em viver os ideais do Evangelho da melhor maneira possível, dentro das situações mais privilegiadas, ou mais difíceis, que compõem as respectivas realidades.

Como disse neste sábado Cardeal Amato, “apesar dos desafios, dificuldades, perseguições, a Igreja de Cristo não cessa de proclamar a cada dia, em todas as partes do mundo, o amor de Deus pelos homens, de irradiar a luz do Evangelho, de insistir no tempo oportuno e inoportuno na proclamação da Palavra de Deus”. (CA/SJ)


Atualidades


VIETNÃ REJEITA DADOS DO RELATÓRIOS DOS EUA SOBRE LIBERDADE RELIGIOSA

◊ Hanói, 20 nov (RV) - O governo do Vietnã rejeitou os dados sobre o país, contidos no relatório do Departamento de Estado norte-americano, acerca da situação da liberdade religiosa no mundo. Hanói acusa o relatório de "não ser imparcial" e de "ter sido elaborado com base em informações falsas".

A porta-voz da chancelaria vietnamita, Nguyên Phuong Nga, criticou o relatório deste ano, que acusa o Vietnã de marginalizar e reprimir os cristãos. "O direito dos cidadãos vietnamitas a professarem livremente seus credos é garantido pela Constituição e, de fato, é respeitado e exercido" – explicou a porta-voz à imprensa internacional.

Nguyên Phuong Nga acrescentou que o exercício do credo religioso no Vietnã é mundialmente reconhecido e acusou o documento de basear-se em informações inexatas. (AF)

© Rádio Vaticano 2010

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