REFLEXÃO PARA O I DOMINGO DA QUARESMA
◊ Cidade do Vaticano, 13 mar (RV) - Começamos a Quaresma com um texto que nos possibilita refletir sobre o projeto de Deus a respeito do ser humano. O livro do Gênesis nos apresenta o homem sendo criado como o ponto alto de toda a criação, como imagem e semelhança de Deus. Exatamente por isso ele deverá proceder como superior a tudo e não deixar-se influenciar por nenhuma qualidade de qualquer coisa criada, deverá permanecer sempre livre!
É nesse exato momento que entra o a perversão do Mal ao provocar no homem o forte e imperioso desejo de experimentar a fruta proibida, ao ponto de apequenar-se cedendo às qualidades olfativas e visuais da fruta em detrimento da orientação do Criador.
Foi o primeiro ato em que o ser humano demonstrou que abria mão de sua liberdade para satisfazer seus instintos, sua curiosidade e, tragicamente, querer ser igual a Deus. Deixou de se reconhecer criatura, homem, vindo da terra, do humus e querendo, com seu próprio poder chegar a ser onipotente. O ser humano trocou a humildade pela soberba, eis o primeiro pecado.
No Evangelho, Jesus, o Homem Perfeito, a verdadeira imagem do Pai, vence o Mal ao manter-se submisso ao Pai e mostrar-se um homem livre. Não será a comida, a satisfação de suas necesidades biológicas que irá submetê-lo às propostas do Mal; nem a tentação do orgulho, da vaidade, do ser renomado, do ser famoso, do prestígio irá fazê-lo aceitar a imposição de Satanás e nem a sedução do poder o derrotará em sua fidelidade ao Pai.
Para nós, a ação de Jesus, sua postura, nos interpela quando em nossa vida somos tentados a satisfazer nossas necessidades naturais, nossos desejos de prestígio e nossa sede de poder. Olhemos para o Homem Perfeito, a Imagem Visível do Deus Invisível, e suas respostas serenas às perturbadoras tentações.
No trecho da Carta aos Romanos, São Paulo nos fala sobre os modos de vida de Adão e de Cristo. O primeiro, como vimos no início de nossa reflexão, mostrou-se fraco. Contudo, essa debilidade foi herdada por todos nós, seus descendentes. Somos conscientes de que titubeamos e fracassamos diante das tentações.
Em Cristo temos exatemente a realização da vocação da natureza humana, ser superior a tudo sendo imagem de Deus, sendo livre!
Mais ainda, não podemos comparar a graça de Deus ao pecado de Adão, nos fala o Apóstolo. Se “pela desobediência de um só homem a humanidade toda foi estabelecida em uma situação de pecado, assim também, pela desobediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça”, que é ser plenamente livre e plenamente unida a Deus. (CAS)
TENTAÇÕES E PROVAÇÕES
◊ Rio de Janeiro, 13 mar (RV) - Estamos no primeiro Domingo da Quaresma! Comentando sobre isso, o Papa Bento XVI, em sua Mensagem para a Quaresma diz que “o primeiro domingo do itinerário quaresmal evidencia a nossa condição de homem nesta terra. O combate vitorioso contra as tentações, que dá início à missão de Jesus, é um convite a tomar consciência da própria fragilidade para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo, caminho, verdade e vida.
É uma clara chamada a recordar como a fé cristã implica, a exemplo de Jesus e em união com Ele, uma lua “contra os dominadores desse mundo tenebroso”, no qual o diabo é ativo e não se cansa, nem sequer hoje, de tentar o homem que deseja aproximar-se do Senhor: Cristo disso sai vitorioso, para abrir também o nosso coração à esperança e guiar-nos na vitória às seduções do mal.”
Sabemos que o pecado é uma realidade que diz respeito à vontade do homem, porque depende da liberdade do consentimento do sujeito para o mal, ou ser dominador dele. Devido a isso, fazemos a distinção entre a tentação em si e a provação, dois elementos completamente diferentes, embora intimamente relacionados entre si. Com a tentação, quando consentida, é que um homem é levado para o pecado: o demônio, primeiro agente tentador, desfruta inicialmente da nossa concupiscência e, depois, da nossa fraqueza, negligência e fragilidade do ambiente que nos rodeia para induzir-nos a cometer diretamente o que não está em conformidade com a vontade de Deus.
O homem estará sempre sujeito às tentações, o que exigirá uma constante vigilância e mortificação dos sentidos e na orientação da vontade e, mesmo quem se dispõe a seguir o Senhor de modo mais próximo ou radical, é sujeito às vezes a tentações, às vezes, aparentemente mais fortes que os outros, "Filho, se serves ao Senhor, prepara-te para a provação" (Eclo 2, 1).
A tentação ao pecado é cativante e sedutora, apresenta garantias e vantagens imediatas para as quais aparentemente somos levados a consentir. Todas as provações são aliviadas pela graça do Senhor, que nos concede também a força para superá-las, e não são mais desproporcionadas às nossas possibilidades. Porém, elas também podem se tornar uma ocasião de pecado para nós se não tomarmos a interpretação correta. Por exemplo: doença grave ou morte absurda de um ente querido, piedoso e inocente como uma prova para todos e um grande motivo de tristeza. Nessa circunstância de provação, somos chamados a nos fundamentar na fé para enraizar-nos na esperança, cultivando a serenidade olhando além das aparências do imediato, drástico e doloroso, voltando o olhar para Deus, que espera a nossa correspondência a esse respeito.
Quem cede à fraqueza, ao desânimo obsessivo e ao desconforto, pode chegar ao desespero e à desconfiança, com a consequência da negligência da própria fé, até a duvidar da existência de Deus A queda no pecado que se segue pode ser de vários tipos.
Tentações e provações estão na ordem do dia no nosso itinerário de perfeição espiritual e constituem a razão da luta contínua nos propósitos de conversão e penitência, que nas últimas semanas tem sido sugerido no tempo litúrgico da Quaresma: aqueles que tendem a optar exclusivamente para o Senhor, abandonando as seduções do mundo e as promessas sedutoras do pecado, sempre sabem as astutas ciladas do Tentador que, de muitas maneiras e em diferentes formas e tamanhos, tendem sempre a desviar a nossa atenção de Deus. E qual é a mais tentadora que atrai o homem do que o descrito na primeira leitura da liturgia de hoje?
Que mais sedutora tentação para o homem do que querer ser "como Deus" (como aparece na tentação da serpente ao homem)? O homem que se eleva à categoria de divindade, na tentativa de tomar controle de sua pretensa onipotência, a teimosia e a presunção de competências que não pertencem à sua natureza e a vontade de poder desproporcionado sobre si mesmo e sobre a massa. E assim é a tentação do homem moderno – tende a suplantar a Deus através das presunções de onipotência e autoafirmação, que resultam em escolhas ilógicas e imorais, antes de tudo a busca do poder, do sucesso e lucro desproporcional, muitas vezes em detrimento de outros homens e até mesmo de populações inteiras.
Mas, se a situação de Adão nos mostra uma tipologia de homem que sucumbe às tentações e está apto a ceder às insinuações do pecado, a experiência de Jesus, tentado no deserto em uma condição de extrema precariedade e de pobreza, mostra-nos que, embora expostos a tentações, podemos exercitar com sucesso a nossa superioridade e a nossa força sobre tudo aquilo que nos apresenta como convidativo e com promessas imediatas e que, ao invés, torna-se perigosa e prejudicial para nós. Mas as atitudes de Jesus se tornaram oportunidades para aumentar sua comunhão com o Pai e abertura franca, livre e total em relação a Ele, e que agora se torna também motivo de vitória sobre o maligno.
Nosso Senhor Jesus Cristo é o único que pode servir como o novo Adão, colocando-se em oposição ao velho homem com os seus feitos, para nos convidar a viver o novo "para o pleno conhecimento, à imagem do seu Criador" (Cl 3, 10-11), e o faz mostrando em ser realizado na comunhão com o Pai e em obediência à Sua vontade em relação ao serviço dos outros. Em primeiro lugar humilhou-se da mesma maneira dos pecadores, e seu exemplo, sua humildade na disposição de se submeter à condição de menor que qualquer homem em uma posição de fraqueza, é emocionante e encorajador para todos nós que vivemos provações e tentações em uma condição muito mais rica do que o deserto de Judá.
† Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ
PECADO E RESTAURAÇÃO
◊ Juiz de Fora, 13 mar (RV) - O projeto de Deus é um projeto de vida. A vida se traduz, entre outras coisas, na justiça que gera a paz. Nesse caso, a serpente representa a tentação humana de se desviar do que é reto e bom e se deixar levar por interesses fugazes, que são agradáveis somente na aparência.
Jesus realiza a justiça do Reino vencendo a tentação da abundância, prestígio e poder. Podemos nós também vencer a tentação do acúmulo e do poder. Podemos realizar a justiça do Reino. Deus nos deu discernimento, sabedoria e fortaleza, só que, às vezes nos deixamos levar por nosso lado fraco.
O Apóstolo Paulo afirma que o Batismo é o nascimento para uma vida nova, pois é participação na morte e ressurreição de Jesus. Com isso, desaparece o “Adão”, marcado pela ganância e autossuficiência, para dar lugar à nova maneira de ver e sentir a vida humana, baseada na fraternidade e na justiça, que geram a paz.
O tempo da graça é infinitamente superior ao regime da escravidão e da morte, pois “não acontece com a graça o mesmo que acontece com a falta. Portanto, se pela falta de um só, todos morreram, com maior razão se espalhou sobre todos com abundância, a graça de Deus e o dom concedido em um só homem, Jesus Cristo”.
Cada um de nós traz Adão na sua carne. Ele é nosso pai, irmão e filho ao mesmo tempo, pois também nos deixamos submeter pela autossuficiência e ganância. Contudo, o Batismo, que é participação na morte e ressurreição de Jesus, fez de nós gente nova. Isso não é mérito nosso, é fruto da solidariedade de Jesus, que, com sua morte, justificou-nos, fazendo-nos passar da morte à vida.
A solidariedade de Jesus para conosco e a nossa para com Ele abriu o caminho para a fraternidade universal. Fraternidade sem justiça é mentira e paz sem justiça é impossível.
Podemos restaurar as nossas faltas, abandonando o velho homem, o “Adão” que existe em nós e seguindo o exemplo de Cristo, Nosso Redentor.
+ Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)
PROPOSTA DE DEUS E RESPOSTA DO HOMEM
◊ Campanha, 13 mar (RV) - Recebemos de Deus um “jardim” desenhado e projetado por Ele, um paraíso. Entretanto, onde havia ordem e harmonia, o pecado traz a desordem, quebra a harmonia e destrói esse “jardim”.
No mundo hodierno, do ter, do ser e do possuir, em detrimento a vida evangélica e a inserção comunitária, são tantos os sinais do pecado: o egoísmo, a destruição da vida das pessoas e do meio ambiente, o poder, a concentração de riquezas, a fome, a miséria, as guerras. Não há, porém, razão para desespero, pois, como diz São Paulo Apóstolo, “onde se multiplicou o pecado, aí superabundou à graça de Deus” (cf. Rm 5,20). Jesus, em sua incondicional obediência ao Pai, nos trouxe vida novamente.
Muitos homens e mulheres tiveram que conservar sua fidelidade ao Senhor vencendo provações e contratempos. Jesus, o Filho de Deus feito homem, também foi provado. Pautado na Palavra de Deus, Jesus vence a provação e manifesta sua total adesão e obediência ao Pai. Ele compreende que o caminho da libertação, querido por Deus, não passa pelos caminhos do poder, nem sagrado, nem político e muito menos miraculoso. O caminho é o do Servo Sofredor, do justo que morre por causa dos pecadores.
Se Jesus, o Filho de Deus, foi tentado, o que dizer de nós? A Quaresma é o tempo favorável de provação para nossa fidelidade ao plano de Deus. Como e com Jesus, orientados pela Palavra viva e eficaz, poderemos discernir, no meio de tantas vozes internas e externas, sinais do Reino e tudo o que o ameaça.
Escutando a Palavra de Deus, luz para os nossos passos, com o ouvido do coração, todas as nossas opções estarão de acordo com o querer de Deus e caminharemos na obediência ao projeto de vida e salvação, vencendo todo tipo de provação, como Jesus, que vence o diabo no deserto, aparece como “vencido” na cruz, mas finalmente torna-se vencedor na Páscoa.
Neste tempo favorável, de jejum, intensa oração, penitência e caridade, desejamos que nós possamos refletir sobre tudo isto, de coração aberto, a fim de que aprendamos a unir aos nossos bons pensamentos e ideais uma vontade firme de seguir os passos de Cristo porque Ele é o Caminho, a verdade e a vida.
Padre Wagner Augusto Portugal
Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)
© Rádio Vaticano 2011
◊ Cidade do Vaticano, 13 mar (RV) - Começamos a Quaresma com um texto que nos possibilita refletir sobre o projeto de Deus a respeito do ser humano. O livro do Gênesis nos apresenta o homem sendo criado como o ponto alto de toda a criação, como imagem e semelhança de Deus. Exatamente por isso ele deverá proceder como superior a tudo e não deixar-se influenciar por nenhuma qualidade de qualquer coisa criada, deverá permanecer sempre livre!
É nesse exato momento que entra o a perversão do Mal ao provocar no homem o forte e imperioso desejo de experimentar a fruta proibida, ao ponto de apequenar-se cedendo às qualidades olfativas e visuais da fruta em detrimento da orientação do Criador.
Foi o primeiro ato em que o ser humano demonstrou que abria mão de sua liberdade para satisfazer seus instintos, sua curiosidade e, tragicamente, querer ser igual a Deus. Deixou de se reconhecer criatura, homem, vindo da terra, do humus e querendo, com seu próprio poder chegar a ser onipotente. O ser humano trocou a humildade pela soberba, eis o primeiro pecado.
No Evangelho, Jesus, o Homem Perfeito, a verdadeira imagem do Pai, vence o Mal ao manter-se submisso ao Pai e mostrar-se um homem livre. Não será a comida, a satisfação de suas necesidades biológicas que irá submetê-lo às propostas do Mal; nem a tentação do orgulho, da vaidade, do ser renomado, do ser famoso, do prestígio irá fazê-lo aceitar a imposição de Satanás e nem a sedução do poder o derrotará em sua fidelidade ao Pai.
Para nós, a ação de Jesus, sua postura, nos interpela quando em nossa vida somos tentados a satisfazer nossas necessidades naturais, nossos desejos de prestígio e nossa sede de poder. Olhemos para o Homem Perfeito, a Imagem Visível do Deus Invisível, e suas respostas serenas às perturbadoras tentações.
No trecho da Carta aos Romanos, São Paulo nos fala sobre os modos de vida de Adão e de Cristo. O primeiro, como vimos no início de nossa reflexão, mostrou-se fraco. Contudo, essa debilidade foi herdada por todos nós, seus descendentes. Somos conscientes de que titubeamos e fracassamos diante das tentações.
Em Cristo temos exatemente a realização da vocação da natureza humana, ser superior a tudo sendo imagem de Deus, sendo livre!
Mais ainda, não podemos comparar a graça de Deus ao pecado de Adão, nos fala o Apóstolo. Se “pela desobediência de um só homem a humanidade toda foi estabelecida em uma situação de pecado, assim também, pela desobediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça”, que é ser plenamente livre e plenamente unida a Deus. (CAS)
TENTAÇÕES E PROVAÇÕES
◊ Rio de Janeiro, 13 mar (RV) - Estamos no primeiro Domingo da Quaresma! Comentando sobre isso, o Papa Bento XVI, em sua Mensagem para a Quaresma diz que “o primeiro domingo do itinerário quaresmal evidencia a nossa condição de homem nesta terra. O combate vitorioso contra as tentações, que dá início à missão de Jesus, é um convite a tomar consciência da própria fragilidade para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo, caminho, verdade e vida.
É uma clara chamada a recordar como a fé cristã implica, a exemplo de Jesus e em união com Ele, uma lua “contra os dominadores desse mundo tenebroso”, no qual o diabo é ativo e não se cansa, nem sequer hoje, de tentar o homem que deseja aproximar-se do Senhor: Cristo disso sai vitorioso, para abrir também o nosso coração à esperança e guiar-nos na vitória às seduções do mal.”
Sabemos que o pecado é uma realidade que diz respeito à vontade do homem, porque depende da liberdade do consentimento do sujeito para o mal, ou ser dominador dele. Devido a isso, fazemos a distinção entre a tentação em si e a provação, dois elementos completamente diferentes, embora intimamente relacionados entre si. Com a tentação, quando consentida, é que um homem é levado para o pecado: o demônio, primeiro agente tentador, desfruta inicialmente da nossa concupiscência e, depois, da nossa fraqueza, negligência e fragilidade do ambiente que nos rodeia para induzir-nos a cometer diretamente o que não está em conformidade com a vontade de Deus.
O homem estará sempre sujeito às tentações, o que exigirá uma constante vigilância e mortificação dos sentidos e na orientação da vontade e, mesmo quem se dispõe a seguir o Senhor de modo mais próximo ou radical, é sujeito às vezes a tentações, às vezes, aparentemente mais fortes que os outros, "Filho, se serves ao Senhor, prepara-te para a provação" (Eclo 2, 1).
A tentação ao pecado é cativante e sedutora, apresenta garantias e vantagens imediatas para as quais aparentemente somos levados a consentir. Todas as provações são aliviadas pela graça do Senhor, que nos concede também a força para superá-las, e não são mais desproporcionadas às nossas possibilidades. Porém, elas também podem se tornar uma ocasião de pecado para nós se não tomarmos a interpretação correta. Por exemplo: doença grave ou morte absurda de um ente querido, piedoso e inocente como uma prova para todos e um grande motivo de tristeza. Nessa circunstância de provação, somos chamados a nos fundamentar na fé para enraizar-nos na esperança, cultivando a serenidade olhando além das aparências do imediato, drástico e doloroso, voltando o olhar para Deus, que espera a nossa correspondência a esse respeito.
Quem cede à fraqueza, ao desânimo obsessivo e ao desconforto, pode chegar ao desespero e à desconfiança, com a consequência da negligência da própria fé, até a duvidar da existência de Deus A queda no pecado que se segue pode ser de vários tipos.
Tentações e provações estão na ordem do dia no nosso itinerário de perfeição espiritual e constituem a razão da luta contínua nos propósitos de conversão e penitência, que nas últimas semanas tem sido sugerido no tempo litúrgico da Quaresma: aqueles que tendem a optar exclusivamente para o Senhor, abandonando as seduções do mundo e as promessas sedutoras do pecado, sempre sabem as astutas ciladas do Tentador que, de muitas maneiras e em diferentes formas e tamanhos, tendem sempre a desviar a nossa atenção de Deus. E qual é a mais tentadora que atrai o homem do que o descrito na primeira leitura da liturgia de hoje?
Que mais sedutora tentação para o homem do que querer ser "como Deus" (como aparece na tentação da serpente ao homem)? O homem que se eleva à categoria de divindade, na tentativa de tomar controle de sua pretensa onipotência, a teimosia e a presunção de competências que não pertencem à sua natureza e a vontade de poder desproporcionado sobre si mesmo e sobre a massa. E assim é a tentação do homem moderno – tende a suplantar a Deus através das presunções de onipotência e autoafirmação, que resultam em escolhas ilógicas e imorais, antes de tudo a busca do poder, do sucesso e lucro desproporcional, muitas vezes em detrimento de outros homens e até mesmo de populações inteiras.
Mas, se a situação de Adão nos mostra uma tipologia de homem que sucumbe às tentações e está apto a ceder às insinuações do pecado, a experiência de Jesus, tentado no deserto em uma condição de extrema precariedade e de pobreza, mostra-nos que, embora expostos a tentações, podemos exercitar com sucesso a nossa superioridade e a nossa força sobre tudo aquilo que nos apresenta como convidativo e com promessas imediatas e que, ao invés, torna-se perigosa e prejudicial para nós. Mas as atitudes de Jesus se tornaram oportunidades para aumentar sua comunhão com o Pai e abertura franca, livre e total em relação a Ele, e que agora se torna também motivo de vitória sobre o maligno.
Nosso Senhor Jesus Cristo é o único que pode servir como o novo Adão, colocando-se em oposição ao velho homem com os seus feitos, para nos convidar a viver o novo "para o pleno conhecimento, à imagem do seu Criador" (Cl 3, 10-11), e o faz mostrando em ser realizado na comunhão com o Pai e em obediência à Sua vontade em relação ao serviço dos outros. Em primeiro lugar humilhou-se da mesma maneira dos pecadores, e seu exemplo, sua humildade na disposição de se submeter à condição de menor que qualquer homem em uma posição de fraqueza, é emocionante e encorajador para todos nós que vivemos provações e tentações em uma condição muito mais rica do que o deserto de Judá.
† Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ
PECADO E RESTAURAÇÃO
◊ Juiz de Fora, 13 mar (RV) - O projeto de Deus é um projeto de vida. A vida se traduz, entre outras coisas, na justiça que gera a paz. Nesse caso, a serpente representa a tentação humana de se desviar do que é reto e bom e se deixar levar por interesses fugazes, que são agradáveis somente na aparência.
Jesus realiza a justiça do Reino vencendo a tentação da abundância, prestígio e poder. Podemos nós também vencer a tentação do acúmulo e do poder. Podemos realizar a justiça do Reino. Deus nos deu discernimento, sabedoria e fortaleza, só que, às vezes nos deixamos levar por nosso lado fraco.
O Apóstolo Paulo afirma que o Batismo é o nascimento para uma vida nova, pois é participação na morte e ressurreição de Jesus. Com isso, desaparece o “Adão”, marcado pela ganância e autossuficiência, para dar lugar à nova maneira de ver e sentir a vida humana, baseada na fraternidade e na justiça, que geram a paz.
O tempo da graça é infinitamente superior ao regime da escravidão e da morte, pois “não acontece com a graça o mesmo que acontece com a falta. Portanto, se pela falta de um só, todos morreram, com maior razão se espalhou sobre todos com abundância, a graça de Deus e o dom concedido em um só homem, Jesus Cristo”.
Cada um de nós traz Adão na sua carne. Ele é nosso pai, irmão e filho ao mesmo tempo, pois também nos deixamos submeter pela autossuficiência e ganância. Contudo, o Batismo, que é participação na morte e ressurreição de Jesus, fez de nós gente nova. Isso não é mérito nosso, é fruto da solidariedade de Jesus, que, com sua morte, justificou-nos, fazendo-nos passar da morte à vida.
A solidariedade de Jesus para conosco e a nossa para com Ele abriu o caminho para a fraternidade universal. Fraternidade sem justiça é mentira e paz sem justiça é impossível.
Podemos restaurar as nossas faltas, abandonando o velho homem, o “Adão” que existe em nós e seguindo o exemplo de Cristo, Nosso Redentor.
+ Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)
PROPOSTA DE DEUS E RESPOSTA DO HOMEM
◊ Campanha, 13 mar (RV) - Recebemos de Deus um “jardim” desenhado e projetado por Ele, um paraíso. Entretanto, onde havia ordem e harmonia, o pecado traz a desordem, quebra a harmonia e destrói esse “jardim”.
No mundo hodierno, do ter, do ser e do possuir, em detrimento a vida evangélica e a inserção comunitária, são tantos os sinais do pecado: o egoísmo, a destruição da vida das pessoas e do meio ambiente, o poder, a concentração de riquezas, a fome, a miséria, as guerras. Não há, porém, razão para desespero, pois, como diz São Paulo Apóstolo, “onde se multiplicou o pecado, aí superabundou à graça de Deus” (cf. Rm 5,20). Jesus, em sua incondicional obediência ao Pai, nos trouxe vida novamente.
Muitos homens e mulheres tiveram que conservar sua fidelidade ao Senhor vencendo provações e contratempos. Jesus, o Filho de Deus feito homem, também foi provado. Pautado na Palavra de Deus, Jesus vence a provação e manifesta sua total adesão e obediência ao Pai. Ele compreende que o caminho da libertação, querido por Deus, não passa pelos caminhos do poder, nem sagrado, nem político e muito menos miraculoso. O caminho é o do Servo Sofredor, do justo que morre por causa dos pecadores.
Se Jesus, o Filho de Deus, foi tentado, o que dizer de nós? A Quaresma é o tempo favorável de provação para nossa fidelidade ao plano de Deus. Como e com Jesus, orientados pela Palavra viva e eficaz, poderemos discernir, no meio de tantas vozes internas e externas, sinais do Reino e tudo o que o ameaça.
Escutando a Palavra de Deus, luz para os nossos passos, com o ouvido do coração, todas as nossas opções estarão de acordo com o querer de Deus e caminharemos na obediência ao projeto de vida e salvação, vencendo todo tipo de provação, como Jesus, que vence o diabo no deserto, aparece como “vencido” na cruz, mas finalmente torna-se vencedor na Páscoa.
Neste tempo favorável, de jejum, intensa oração, penitência e caridade, desejamos que nós possamos refletir sobre tudo isto, de coração aberto, a fim de que aprendamos a unir aos nossos bons pensamentos e ideais uma vontade firme de seguir os passos de Cristo porque Ele é o Caminho, a verdade e a vida.
Padre Wagner Augusto Portugal
Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)
© Rádio Vaticano 2011
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